A instrumentalização da fé na política brasileira: De onde vem a “Guerra Santa” e para onde ela nos leva?
O Brasil contemporâneo vive sob o signo de uma divisão profunda. De um lado, a hegemonia do Lulismo; do outro, a consolidação da extrema-direita bolsonarista. Contudo, mais do que uma divergência pragmática sobre economia, projetos sociais ou gestão pública, a política nacional passou a ser pautada por uma narrativa maniqueísta que transforma o pleito em um tribunal metafísico: a disputa moral entre o “Bem” e o “Mal”, o “Divino” contra o “Demoníaco”.
O uso da religião como engrenagem de mobilização de massas não é um fenômeno inédito, mas a atual escala de sofisticação e instrumentalização pelo medo impõe reflexões urgentes para a manutenção da laicidade do Estado e do pacto democrático.
O Resgate Histórico: A Política no Altar
A utilização do sentimento religioso para pautar rumos políticos e mobilizar a sociedade brasileira possui raízes antigas:
- A Guerra de Canudos (1896–1897): Antonio Conselheiro utilizou a religiosidade messiânica como resistência contra a recém-proclamada República, demonstrando o poder de mobilização social através do discurso místico em momentos de profunda desigualdade.
- A Marcha da Família com Deus pela Liberdade (1964): Um dos catalisadores do golpe militar de 1964 articulou a pauta do “perigo comunista” sob a bandeira da moral cristã e dos costumes tradicionais.
- O Alinhamento Neopentecostal na Nova República (Décadas de 1980 e 1990): Com o crescimento demográfico das igrejas evangélicas e a formação da chamada “Bancada Evangélica”, a fé deixou de ser apenas expressão individual para se tornar um projeto estruturado de ocupação de espaços no poder público.
Do Discurso Político à Pauta da “Guerra Santa”
O Bolsonarismo levou esse histórico a um novo patamar ao incorporar a lógica da Teologia do Domínio. Nessa visão, o adversário político deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser rotulado como uma “ameaça existencial ou diabólica” que precisa ser extirpada.
O medo atua como ferramenta primária de controle social:
- Pânico Moral: A disseminação de narrativas de que crenças ou famílias estão sob risco iminente de destruição.
- Monopólio da Virtude: A transferência da discussão sobre políticas públicas para o campo da fé, desarmando o debate racional e inviabilizando o contraditório.
O Desafio da Laicidade e o Futuro Político
O Estado laico não é anti-religioso; pelo contrário, é a garantia constitucional que assegura o direito de culto de todas as confissões e o direito daqueles que não possuem religião. Quando a política transforma o debate cívico em cruzada espiritual, o diálogo é substituído pelo fanatismo e as pontes de conciliação nacional são destruídas.
Para que o Brasil supere a paralisia do medo, é imperativo resgatar a política como o espaço do contraditório, da negociação e do atendimento às necessidades concretas da população — saúde, educação, emprego e segurança — em vez de utilizá-la como palco para batalhas espirituais.








