A falta de chuvas prolongada está provocando danos históricos para a agricultura familiar na Colônia Agrícola do Matapi, situada em Porto Grande, município localizado a aproximadamente 100 km de Macapá. Plantações inteiras de laranjas, bananas, cocos e abacaxis foram destruídas pelo longo período de estiagem na região.
Prejuízos generalizados nas plantações locais
Em uma única propriedade da área, cerca de 8 mil pés de laranja permanecem carregados, porém os frutos apodreceram e perderam totalmente o valor comercial. Desde o mês de setembro, os trabalhadores rurais locais enfrentam dificuldades para realizar colheitas regulares.
“Não tínhamos tido um ano como esse, com uma seca desta proporção. A fruta está totalmente seca e não tem mais mercado. Toda essa produção já foi perdida”, lamentou o agricultor Vilmar Laurindo.
Além dos laranjais, a seca derrubou bananeiras e comprometeu severamente o cultivo de coco. O produtor rural Joilson Oliveira de Souza relata uma queda drástica na atividade: anteriormente, sua produção alcançava 2.500 cocos por semana, mas atualmente ele consegue colher apenas 500 a cada 15 dias.
Crise na principal economia do município
O cultivo do abacaxi, principal atividade econômica da cidade e detentor desde 2024 do selo de Indicação Geográfica (IG) devido ao sabor e à qualidade diferenciados, figura entre os mais afetados pela crise climática. A colheita mensal na localidade despencou de cerca de 80 toneladas para menos de 15 toneladas, o que representa uma queda superior a 80%.
“Porto Grande tem cerca de 5 milhões de pés de abacaxi, mas boa parte já está morrendo. É uma situação climática natural, mas que precisa de políticas públicas para auxiliar o produtor com urgência”, explicou Suel de Araújo Diniz, presidente da Associação dos Produtores de Abacaxi de Porto Grande.
Mesmo em plantações que completaram o ciclo de 12 meses, os frutos não alcançaram o tamanho adequado para comercialização. Compradores da região já alertam sobre a possibilidade de escassez do produto no mercado.
O contraste trazido pela irrigação
Em contrapartida, propriedades que contam com sistemas de irrigação apresentam cenários totalmente diferentes. O agricultor Márcio Braga Pereira conseguiu preservar sua lavoura verde e produtiva graças a um equipamento financiado por um programa estadual, avaliado em aproximadamente R$ 60 mil.
“Se não fosse a irrigação, a minha plantação estaria perdida, como a de muitos outros produtores”, afirmou Márcio.
Segundo Aldiclei Barbosa dos Santos, presidente da Associação dos Agricultores da Colônia Agrícola do Matapi, o projeto foi viabilizado junto à Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural (SDR) por meio de edital, contemplando 20 produtores rurais.
Busca por soluções e apoio governamental
No entanto, para a maioria das cerca de 600 famílias que integram a comunidade, o acesso à água permanece financeiramente inviável sem o suporte do governo. Além do fornecimento emergencial de cestas básicas, os agricultores exigem a perfuração de poços artesianos e a implementação de sistemas de irrigação para garantir o cultivo nos próximos anos.
Lideranças dos produtores rurais já mantiveram reuniões com equipes da Defesa Civil Estadual, do Instituto de Extensão de Assistência e Desenvolvimento Rural do Amapá (Rurap) e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) para negociar medidas de enfrentamento à crise.








