Uma operação de fiscalização realizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) resultou na aplicação de R$ 1.488.172 em multas a propriedades rurais situadas em uma das regiões mais importantes para o ecoturismo de Mato Grosso do Sul.
Balanço da fiscalização em MS Entre os dias 27 e 30 de outubro, agentes do órgão ambiental vistoriaram 44 propriedades rurais distribuídas por Bonito, Jardim, Caracol, Porto Murtinho e Bodoquena. Desse total, apenas seis locais não apresentaram irregularidades ambientais.
Durante as vistorias, as equipes emitiram 26 autos de infração e 36 notificações, além de apreenderem 1.799,4 litros e 638,04 quilos de agrotóxicos vencidos. Em alguns casos, os produtos estavam com a validade expirada desde 2010, ultrapassando um período de 15 anos de vencimento. As substâncias foram localizadas em áreas próximas a cursos d’água de grande relevância turística, como o Rio Perdido, o Rio da Prata e o Rio Formoso.
A maior penalidade financeira da operação ocorreu em Caracol, onde o proprietário de uma fazenda recebeu uma multa de R$ 757,5 mil — valor que supera a metade do montante total aplicado na ação. No local, os fiscais descobriram defensivos agrícolas ilegais com rotulagem chinesa, além de embalagens vazias abandonadas nas proximidades da vegetação, algumas incineradas ou descartadas incorretamente em grotas com risco de escoamento pluvial.
Riscos para a biodiversidade e os rios Embora a fiscalização não tenha constatado a contaminação direta dos rios da região, especialistas alertam para o perigo potencial que essas substâncias representam para os ecossistemas locais.
O biólogo e pesquisador José Sabino, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal, destaca que o descarte ou uso inadequado desses insumos pode prejudicar severamente a cadeia alimentar aquática. A redução das macrófitas — plantas aquáticas essenciais para abrigo e alimentação de pequenos organismos — impacta diretamente as cerca de 60 espécies de peixes da Serra da Bodoquena que dependem de insetos para sobreviver.
Além disso, dados do MapBiomas indicam que a pressão sobre o bioma tem crescido, com o registro de 17,3 mil hectares desmatados entre 2020 e 2024 nos municípios de Bonito, Bodoquena e Jardim, impulsionado principalmente pelo avanço das áreas de lavoura sobre antigas pastagens.
Perigos à saúde e regras de armazenamento Especialistas reforçam que a utilização de produtos clandestinos ou com prazos de validade expirados traz sérios riscos tanto para a atividade agrícola quanto para a integridade física de quem os manipula.
“O contato pode provocar intoxicações, queimaduras químicas, problemas respiratórios e outras complicações de saúde. Nas lavouras, produtos sem controle de qualidade podem prejudicar o desenvolvimento das plantas, impedir a germinação de sementes e até destruir culturas inteiras”, explica Danilo Furtado dos Santos, engenheiro-agrônomo e chefe da Divisão de Insumos e Serviços Agrícolas da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro).
A legislação brasileira estabelece critérios rígidos para o manuseio desses materiais. Os depósitos devem ser ventilados, isolados e distantes de fontes de água e residências, sendo proibida a reutilização ou o descarte inadequado das embalagens vazias.
Conforme a Lei Federal nº 14.785/2023, condutas como produzir, armazenar, comercializar ou transportar defensivos não registrados configuram crime, com penas de reclusão que podem variar de três a nove anos, além de sanções financeiras aplicadas aos infratores.








