As águas do Rio Mogi-Guaçu, em São Simão, no interior paulista, guardam uma lenda assustadora que passa de geração em geração. A narrativa gira em torno de Diogo da Rocha Figueira, o Dioguinho, um dos criminosos mais temidos da história regional durante o século 19, cuja alma ainda vagaria pelo local a bordo de uma canoa fantasma.
Origem da lenda e a canoa fantasma O mistério ganhou força após o desaparecimento do bandido, morto aos 33 anos durante uma emboscada policial em 1897. A professora e pesquisadora Nilce Camila de Carvalho destaca que a ausência de confirmação sobre o destino do corpo alimentou teorias de que ele teria sobrevivido.
“Essa descrença em relação à morte dele ajudou, inclusive, nessa teoria de que ele virou um fantasma mesmo”, afirma a pesquisadora.
A imagem da embarcação solitária navegando à noite apareceu em obras literárias de 1903, escritas pelo delegado Antônio de Godói, e foi eternizada em canções populares como ‘A Alma de Dioguinho’, interpretada pela dupla Denilson & Denivaldo, além de versos do autor Paulo Lopes Garcia.
“Em volta da sua cruz se ouve forte gemido, deve ser a alma penada desse valente bandido. Matava pra ver o tombo, mas um dia foi vencido”
Trajetória de crimes e proteção dos poderosos Nascido em Botucatu em 1863, Dioguinho atuou no contexto da economia cafeeira. Inicialmente agrimensor e funcionário público, ele passou a atuar como matador de aluguel a mando de coronéis e fazendeiros envolvidos em conflitos políticos e econômicos da época.
“Um grupo não se dava muito bem com o outro, grupos que haviam bastante discussão. Então ele acabou se transformando em matador de aluguel, a mando de alguns coronéis, e ele resolvia essas questões políticas mesmo”, explicou.
Segundo registros de jornais e autoridades da época, estima-se que ele tenha assassinado ao menos 20 pessoas. A proteção exercida pelos mandantes e a crueldade dos crimes — incluindo relatos de que cortava as orelhas das vítimas para rezar as horas marianas — construíram sua fama temida.
“Então, de certa forma, ele serviu bastante aos interesses desses coronéis e tudo, e, ao fim, depois, nenhum deles foi envolvido nos crimes do Diogo”, disse Nilce.
A pesquisadora também aponta que a imaginação popular e os relatos de delegados ampliaram a fama de facínora do criminoso, misturando fatos reais e exageros folclóricos.
“E, claro, ele era um matador sanguinário, porque muitos processos trazem algumas informações sobre isso, mas muito foi aumentado também, as narrativas, muitas escritas por delegados. Então, assim, eles colocaram ele como facínora”, afirmou.
O confronto final e o mistério do corpo A emboscada que encerrou a vida de Dioguinho ocorreu após a traição de um amigo chamado Urbano, que revelou seu esconderijo na fazenda onde estava com o irmão, João. Cercados pela polícia às margens do Rio Mogi-Guaçu, João morreu na hora, mas o corpo de Dioguinho nunca foi localizado.
“Então, possivelmente, ele caiu, levou mesmo um tiro. A tropa já atirou assim que eles se chegarem na margem, porque não tinham interesse mesmo em prender ele, porque, inclusive, se prendessem ele, ele poderia delatar muitas pessoas poderosas na época. Então, a ideia era mesmo uma queima de arquivo”, afirmou Nilce.
O sumiço do cadáver gerou boatos de que ele teria escapado para Minas Gerais e alimentou a crença popular em sua imortalidade. Meses depois, a morte de Urbano foi associada por populares a uma suposta vingança do criminoso, embora não haja provas sobre a autoria daquele homicídio.
“Não se sabe se mandou assassinar ele, como que foi, nada disso tem informações. Mas o fato de ele ter morrido fez com que as pessoas falassem que era o Dioguinho, que ele estava se vingando por ter sido delatado por ele”, explicou a pesquisadora.
Mais de um século após o confronto no rio, a figura de Dioguinho continua viva no imaginário popular do interior de São Paulo, fundindo registros históricos, interesses políticos do período cafeeiro e o folclore místico das águas de São Simão.








