Com uma trajetória que se confunde com a evolução da capital do Acre, o Cemitério São João Batista, situado no bairro Dom Giocondo, guarda bem mais do que a memória daqueles que já se foram. Sendo o maior e mais antigo espaço do tipo na cidade, o local abriga 15 mil sepulturas e ao menos 80 mil pessoas sepultadas, servindo como um verdadeiro reflexo de como a região se desenvolveu e se transformou ao longo das décadas.
Origens e a modernização urbana
Apesar de faltar um registro documental definitivo sobre a idade exata do terreno, pesquisas apontam que a oficialização ocorreu em 1909, na gestão do prefeito do Departamento do Alto Acre, Gabino Besouro. Contudo, há uma divergência em um documento municipal de 2003 que aponta 1907 como o ano de criação. A historiadora Poliana Melo explica que a fundação esteve atrelada às reformas sanitárias e de planejamento do final do século XIX e início do século XX.
“O discurso oficial seguia a lógica de modernizar a então vila Rio Branco para transformá-ela em cidade. Nesse sentido, a criação de um cemitério se fazia necessária para a demarcação e a ordenação dos espaços urbanos. Os sepultamentos deveriam, a partir de então, ocorrer nos locais destinados a essa finalidade”, destacou a especialista, ressaltando que sepultamentos em áreas residenciais ou matas deixaram de ser permitidos. “Não seriam mais admitidos enterros nas cercanias das residências, em áreas de mata, nas proximidades dos roçados ou nos cemitérios populares, considerados incompatíveis com o planejamento e o controle governamental associados à modernidade”, complementou.
Memória coletiva e diversidade
Para além de figuras ilustres, a necrópole preserva o legado de trabalhadores e famílias comuns que edificaram o cotidiano de Rio Branco. O acervo arquitetônico, composto por mausoléus, esculturas e inscrições antigas, evidencia as crenças e as diferenças sociais de cada época. A atuação dos funcionários que cuidam diariamente da manutenção também reforça a importância social do ambiente.
“Além disso, existe um conjunto de trabalhadores e trabalhadoras que atuam diariamente na organização e limpeza do espaço, sepultamentos, orientações e recepção dos visitantes do cemitério. O espaço cemiterial reflete as dinâmicas da sociedade, processos históricos e outras formas de narrar a cidade que podem servir tanto como fonte histórica, quanto veículo de difusão e até de questionamento dos problemas cotidianos de Rio Branco”, comentou.
Potencial como museu a céu aberto
A pesquisadora defende que o local seja aproveitado além dos rituais de finados, transformando-se em um polo educativo para a rede pública de ensino por meio de visitas guiadas e projetos culturais.
“O São João Batista poderia ser transformado numa espécie de museu a céu aberto, pois sua arquitetura, as obras de arte, as manifestações religiosas, as homenagens, formas de trabalho e etc. nos contam histórias e poderiam ser melhor aproveitadas nos processos educacionais da rede pública de ensino, aproveitando, inclusive, os conhecimentos dos trabalhadores e trabalhadoras que atuam diariamente naquele espaço”, sugeriu.
Por fim, a escolha do padroeiro remete ao simbolismo cristão da transição e da renovação espiritual. A necrópole permanece como um marco histórico essencial para entender a identidade, a cultura e o passado da população acreana.








