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Clubes de hobbies unem mulheres no interior de SP contra a solidão

Iniciativas presenciais em São José do Rio Preto ganham força para criar conexões reais e combater a falta de tempo na vida adulta.

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Por que pagar para estar juntas? Clubes de hobbies no interior de SP unem mulheres fora das redes

Aprender técnicas manuais como cerâmica, pintura ou a fabricação de velas, algo facilmente acessível por tutoriais na internet, deixou de ser a única escolha para moradoras de São José do Rio Preto, no interior paulista. A cidade registra uma crescente onda de clubes de hobbies e encontros criativos, onde o objetivo principal vai muito além do aprendizado prático: trata-se de pagar para vivenciar uma experiência coletiva, fugir da rotina e ampliar o ciclo de amizades fora do ambiente digital.

O desafio de socializar na vida adulta

Em meio a rotinas intensas divididas entre trabalho, família e estudos, manter laços afetivos tornou-se um desafio complexo. Encontros espontâneos perderam espaço na agenda, gerando sentimentos de isolamento e a necessidade urgente de buscar novos pontos de contato com outras pessoas.

Foi justamente a exaustão com o ritmo acelerado do cotidiano que impulsionou a criação de iniciativas voltadas para essa faixa etária. “Eu costumo falar que o clube nasceu de uma mulher cansada. A vida é muito mais do que trabalhar”, conta Bruna Albanês, criadora do Clube Seiva.

Para a idealizadora, a dependência tecnológica afeta a profundidade das relações humanas, tornando os encontros presenciais um refúgio necessário. “A gente está com o telefone a todo momento. Então a gente está conectada a todo momento, mas a gente nunca está presente de fato. Eu sinto que tem mulheres que buscam esse tipo de encontro para talvez se reencontrar”, afirma Bruna.

Espaços seguros e identificação feminina

A transição para a vida adulta também gerou sentimentos de solidão em Katerly Almeida, fundadora do Clube Criar. A percepção de que outras mulheres enfrentavam a mesma dificuldade para socializar estimulou a criação de um ambiente voltado para o fortalecimento de vínculos femininos.

Segundo Katerly, a troca de experiências entre mulheres possui um valor único de acolhimento. “É muito importante as mulheres terem esse local seguro para elas estarem, né? Para elas desenvolverem habilidades, conversarem com outras mulheres, que precisam sim ter conexão com outras mulheres, porque só nós entendemos nós mesmas. Não tem como a gente explicar para um homem o que a gente sente e ele entender na sua totalidade”, comenta Katerly.

Essa liberdade de expressão sem receio de julgamentos é apontada por participantes como a professora de ciências Flávia Laís Tumelero, que frequentou uma oficina de velas. “A gente pode se abrir mais, a gente sente um clima bem mais leve e acho que todo mundo se sente bem confortável, então a gente pode falar como a gente se sente sem ser julgada”, ressalta Flávia.

A coragem de ir sozinha e o foco na prática

Dar o primeiro passo e comparecer aos encontros sem companhia é um obstáculo superado por muitas participantes. A tatuadora Paulínia Gimenes decidiu participar de uma oficina de bordado em foto por conta própria, encontrando um espaço propício tanto para focar em uma nova atividade quanto para interagir com pessoas de diferentes faixas etárias.

O formato presencial também favorece a introspecção e a colaboração mútua, conforme relata a anestesiologista Elaine Moraes da Silva. “Eu estou num momento da vida com mais tempo, refletindo tudo sobre mim. E eu acho que essas coisas vão dar bastante alegria na minha vida, porque é um trabalho manual, é uma introspecção enquanto eu estou bordando. A troca presencial olho no olho é muito importante”, comenta Elaine.

A conexão social como pilar de saúde pública

A relevância desses vínculos ganhou ainda mais peso global quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a conexão social como questão de saúde pública, alertando que a solidão afeta uma a cada seis pessoas e está ligada a centenas de milhares de mortes anuais.

A psicóloga Giovanna Belém Miyazaki, doutora em psicologia do desenvolvimento, reforça que a busca por convivência é uma característica inerente à humanidade. “Nós humanos somos seres sociais. Isso significa buscar outras pessoas com quem a gente se identifica, fazer coisas junto com essas pessoas, passar tempo com os outros, fazer trocas com essas pessoas, não é exceção, é regra”, comenta a psicóloga.

A especialista acrescenta que, embora a tecnologia simule interações por meio de mensagens e redes sociais, a atenção fragmentada prejudica a profundidade dos laços. Por isso, iniciativas baseadas em interesses comuns funcionam como catalisadores para relações mais autênticas. “Mesmo que sejam pessoas desconhecidas, os clubes oferecem a oportunidade da gente conhecer, da gente conversar, da gente trocar experiências com pessoas que a gente pode se identificar. Existe uma chance maior desse tipo de conexão acontecer”, explica a psicóloga.

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