Moradores de Banabuiú, município localizado no sertão central do Ceará, enfrentaram dias de filas e forte escolta policial para conseguir comprar garrafões de água potável. A crise no abastecimento ocorreu após comerciantes locais suspenderem as vendas devido a uma série de extorsões e ameaças promovidas pelo Comando Vermelho, com diretrizes originadas na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro.
O Edital Banabuiú e as cobranças ilegais As intimidações começaram a circular em meados de outubro por meio de mensagens de texto e ligações telefônicas com DDD carioca. Assinada por uma suposta diretoria da facção, a exigência criminosa estipulava que a comercialização de água dependia de autorização prévia dos criminosos. Para manter os estabelecimentos abertos e comercializar os garrafões, os comerciantes eram obrigados a pagar taxas semanais abusivas, além de valores fixos por unidade vendida. Temendo represálias, os lojistas paralisaram o comércio, gerando pânico e desabastecimento na cidade.
A crise da água e a alternativa da rede pública Com a suspensão da venda de água mineral, a população se viu em situação crítica, uma vez que o líquido engarrafado é o principal meio de consumo para beber na região. Embora o Serviço Autônomo de Água e Esgoto tenha garantido a qualidade do recurso fornecido pelo açude local, muitos moradores relataram receio e problemas estomacais ao consumir a água encanada.
“A água é o básico, a gente tem idoso, criança. A gente não pode beber água do açude, porque fica todo mundo com dor de barriga. Tem gente que não tem condições de ficar nessa fila. A gente quer que resolva, o que a gente não pode é ficar sem água”, falou à TV Verdes Mares a dona de casa Antônia Conceição de Freitas, que ficou mais de 2 horas na fila para conseguir comprar água.
Diretor do SAAEGarante qualidade O diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Banabuiú, Francisco Carlos Farias, defendeu a segurança do sistema público de abastecimento.
“É uma água tratada, uma água boa, uma água potável e de qualidade”, falou o diretor do SAAE.
Operação emergencial e o comando da Rocinha Para minimizar os impactos, uma força-tarefa com apoio da Companhia de Água e Esgoto do Estado do Ceará e da Polícia Militar organizou a distribuição controlada de garrafões. As investigações da Secretaria de Segurança Pública apontaram que o mentor das extorsões está escondido no Rio de Janeiro. Contudo, a complexidade geográfica da favela carioca dificulta investidas imediatas das autoridades locais.
“Muito embora a gente tenha uma colaboração muito boa com a polícia do Rio de Janeiro, a captura dele demanda uma organização muito complexa devido ao ambiente que não favorece uma operação sem que haja o perigo de fogo amigo ou trazer algum transtorno para a população. Mas isso não impede de que a gente planeje e, como já foram feitas em outras oportunidades, a gente faça operações para capturar não só ele, mas bandidos de outros estados que também estão fazendo a mesma coisa”, disse Sérgio Pereira.
Prisões e expansão das investigações A reação policial resultou na prisão de dez suspeitos de integrar a engrenagem local da facção, encarregados de colocar as ordens em prática no interior cearense. Com a estabilização da segurança, o prefeito Marcílio Coelho anunciou a normalização das atividades comerciais na região.
“Os fornecedores farão suas entregas. Então a gente pede a população que entre em contato com os seus fornecedores para pedir a sua água hoje. Às 12h estará normalizado o abastecimento de água na nossa cidade”, garantiu o prefeito.
O caso de Banabuiú revelou um modus operandi que passou a se repetir em outras regiões do estado, com denúncias semelhantes surgindo em bairros de Fortaleza, Meruoca e Caridade, evidenciando o alcance das extorsões ligadas a criminosos refugiados em território fluminense.








