A profissional de recursos humanos Mara Suassuna, de Goiás, afirmou ter recebido diversas solicitações de empresários interessados em filtrar candidatos de esquerda após o término das votações presidenciais de 2026.
Demanda corporativa pós-eleição
De acordo com a recrutadora, a exigência de exclusão partiu de clientes logo após o pleito que definiu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Em postagens na internet, ela declarou:
“Hoje eu recebi vários telefonemas, várias mensagens de clientes meus, de empresários que têm nas suas empresas, inclusive pedindo para selecionar novos colaboradores, cujo critério passa por não ser petista”
A autora da iniciativa defendeu que a restrição não se baseia em diretrizes partidárias, mas em princípios fundamentais e na busca por compatibilidade cultural no ambiente corporativo. Para fundamentar a conduta, ela recorreu aos estudos de Shalom H. Schwartz sobre comportamento humano.
“Não é uma questão de ideologia política, é uma questão de valores. Existe um teórico da psicologia que se chama Schwartz e ele fala da teoria dos valores, que o que define as nossas escolhas são os nossos valores. Onde não existe compartilhamento de valores, de missão, não tem resultados. Então não é uma questão apenas de ideologia. Não dá para contratar um funcionário que não tenha os valores que são os valores da minha empresa”
Críticas éticas e legais
Especialistas da área de saúde mental repudiaram a postura adotada no processo seletivo. A psicanalista Luísa Jaques Côrtes apontou incompatibilidades com as diretrizes da categoria:
“Posso afirmar que acho muito problemático uma afirmação como essa, ainda mais instrumentalizada pela psicologia, se esse for o caso […]. Me chama muita atenção, como sempre, após eleições a utilização de falas como essa voltam a circular”
No mesmo sentido, a psicóloga comunitária Iara Caixeta Moreira alertou sobre a conversão de divergências ideológicas em julgamentos morais e defendeu a pluralidade intelectual nos ambientes de trabalho.
“Quando a discussão sobre alinhamento de valores surge após uma eleição e passa a orientar decisões de contratação, abre-se espaço para questionar se diferenças políticas estão sendo indiretamente convertidas em julgamentos morais”
Iara também destacou:
“Defender a diversidade de pensamento exige mais do que afirmar que pensar diferente é legítimo. Exige reconhecer que pessoas com diferentes trajetórias, convicções e visões de mundo podem compartilhar compromissos profissionais fundamentais”
Consequências jurídicas e posicionamento oficial
Do ponto de vista normativo, a legislação trabalhista brasileira veda qualquer prática discriminatória que restrinja o acesso ou a permanência em postos de trabalho, prevendo penalidades financeiras. Paralelamente, o Código de Ética Profissional da Psicologia proíbe categoricamente a indução de convicções morais ou políticas no exercício da profissão.
A consultoria responsável pelas declarações reforçou que continuará atendendo demandas com esse perfil e concluiu sua manifestação definindo os profissionais não alinhados como elementos inadequados:
“Tenho certeza de que eu vou contratar muita gente boa. De direita, alinhada com os valores, a missão e a visão da sua empresa. Não tem jeito de laranja podre estar pertinho da gente”
Até o momento da publicação, o Conselho Regional de Psicologia de Goiás não havia se pronunciado sobre o episódio, enquanto a prestadora de serviços mantém seu registro ativo junto ao órgão fiscalizador.








