Celebração do Dia Nacional do Livro destaca o papel transformador de autoras da região do Cariri, no Ceará, que utilizam suas obras para resgatar figuras históricas esquecidas e dar protagonismo a grupos marginalizados pela sociedade.
Resgate histórico e ficção no sertão
A historiadora Dia Bárbara Nobre, natural de Juazeiro do Norte, iniciou sua trajetória literária ao investigar documentos da historiografia cearense, encontrando registros sobre a beata Maria de Araújo, figura de grande relevância no catolicismo popular local, mas com espaço reduzido nos registros oficiais.
“Essa pesquisa sobre a beata Maria de Araújo resultou, muitos anos depois, no livro ‘Incêndios da Alma’. E resultou também em outra coisa: na percepção de que os arquivos estão cheios de mulheres cujas vozes chegam até nós mediadas, silenciadas ou deformadas pelo olhar de quem teve o poder de escrever.”, explica a escritora.
O sucesso da obra abriu caminho para a incursão na ficção. Em 2025, a autora lançou o romance “Boca do Mundo”, focado nas vivências de mulheres que enfrentam a violência doméstica e na força da solidariedade feminina.
“A literatura me permitiu fazer uma pergunta diferente. Não apenas ‘o que aconteceu com essas mulheres?’, mas: ‘e se elas pudessem falar?’. É desse lugar que nasce ‘Boca do Mundo’. Nele, pude inventar um sertão próprio, mesclando minhas experiências no sertão do Ceará onde nasci e no sertão do pernambuco, onde morei por nove anos”, explica a autora.
“O livro me permitiu falar profundamente sobre the Cariri que conheço: um lugar atravessado pela fé e pela violência, pelo desejo e pelo medo, pelo sonho, pela memória e pelo assombro. Um lugar em que as mulheres sempre estiveram no centro da vida, embora nem sempre tenham ocupado o centro das narrativas”, conclui.
Memória matriarcal e ancestralidade
Outra voz marcante da literatura caririense é Zulmira Correia, que aborda a força feminina em sua produção artística e literária. O livro “Água-ventre” expande um projeto que nasceu como exposição de arte, unindo registros sonoros, visuais e textuais sobre a Chapada do Araripe.
“O nome deriva das narrativas de água do meu território como chuva, a plantação, os barreiros. E o ventre vem das narrativas de nascimento, do parto. Minha bisavó era parteira e dela vieram alguns desses caminhos, inclusive parte desse título. Minha família é matriarcal. Tenho exemplos de mulheres em suas essências, histórias de vida, enfermeiras, agricultoras, parteiras, rezadeiras”, afirma a autora.
Literatura infantil e autonomia dos pequenos
No segmento infantojuvenil, a escritora Aline Bussons utiliza animais como protagonistas para dialogar diretamente com o público infantil, levantando discussões sobre liberdade, respeito às diferenças e autonomia.
“Uma baleia muito esperta” apresenta a personagem Roberta e convida à reflexão sobre a individualidade, enquanto “O Hipopótamo que tinha ideias demais” narra o cotidiano de Everardo na lagoa.
“Sempre estou chamando a atenção para o direito à liberdade que a criança tem de pensar, de imaginar, chamando atenção para a autonomia da criança, que é muito comprometida nesse modelo de sociedade ocidental e adultocêntrica”, afirma a escritora.
As vivências no território cearense continuam moldando os próximos passos de sua carreira, incluindo uma nova obra voltada para o formato de autoficção sobre sua infância.
“Minha família é de Acaraú, mas meu pai trabalhou em várias cidades na minha infância: Missão Velha, Aurora, Antonina do Norte. E o meu próximo livro vai ser uma autoficção sobre minha infância em Missão Velha, da época que eu fazia catecismo”, revela.
A literatura como ferramenta política
Para a pesquisadora e doutora em Letras Luciana Bessa, vinculada à Universidade Federal do Ceará (UFC), o fazer literário está profundamente conectado a posicionamentos sociais e ideológicos, descartando a ideia de neutralidade na linguagem.
“A literatura é criada por homens e mulheres que são seres políticos, como diz Aristóteles. Quando a gente está diante de um livro, temos que ter em mente que aquela linguagem que está ali na nossa frente foi criada propositadamente para que o autor leve o leitor a pensar aquela mensagem que o escritor quer”, afirma.
“É uma linguagem revestida de retórica, gramática, semântica, lógica, dialética, para levar o leitor a se perguntar o que estou lendo e o por que estou lendo. É uma linguagem que é revestida de filosofia, ideologia, de um apelo emocional, de um sentimento daquele que escreve”, completa.
O engajamento dessas escritoras reforça a importância de descentralizar narrativas e ampliar o alcance de vozes historicamente marginalizadas na cultura nacional.








