A Avenida Ibitiguaia, situada no bairro Santa Luzia, em Juiz de Fora, transcende o papel de via de tráfego. Para a Zona Sul da cidade, o local funciona como um centro dinâmico onde o desenvolvimento econômico se funde a narrativas de resiliência e laços comunitários. Com um mercado de trabalho local onde o setor de serviços e comércio responde por 78,9% das ocupações formais, a avenida se destaca como um ponto de convergência entre negócios tradicionais e a construção da identidade urbana.
O papel do comércio na identidade urbana De acordo com dados da Prefeitura de Juiz de Fora, a via abriga 257 estabelecimentos registrados. O segmento de alimentação lidera o ranking com 34 unidades, seguido por logística, serviços automotivos e educação. Para a professora da UFJF e pesquisadora do grupo Comunicação, Cidade e Memória, Christina Musse, o comércio é a alma das ruas.
“As relações econômicas de uma rua marcam a identidade dela […]. Conhecer a cidade é perceber essas mudanças, encontros e rupturas, que, por obra do acaso ou não, acontecem nas ruas. O comércio, nesse aspecto, tem uma importância fundamental, crucial para nós mantermos vivas as nossas cidades.”
Histórias de superação e o legado dos livros Um dos marcos da avenida é o Almeida Livros, mantido por Renato Ribeiro. Aos 82 anos, o livreiro transformou um infortúnio em oportunidade: após perder grande parte de sua biblioteca pessoal em uma enchente nos anos 90, ele abriu um sebo. Mesmo enfrentando uma devastadora cheia em 2020, que custou cerca de 15 mil exemplares, Renato manteve o negócio ativo como um serviço à comunidade.
“O sebo é importante para a história. Porque, normalmente, os livros estão fora de catálogo ou não têm reedição. É muito livro que tem valor pelo conteúdo e valor histórico. E quem gosta, principalmente o pessoal mais antigo, que foi criado na dependência do livro para se informar, sempre lembra de um livro que leu.”
Redes de apoio e vizinhança O Studio Patrícia Ribeiro exemplifica como o comércio local funciona como uma rede de suporte. Desde 2001 na avenida, a proprietária destaca que o atendimento vai muito além do serviço técnico, criando laços de amizade e acolhimento com a clientela.
“A pessoa entra e você fica sabendo tudo da vida dela ali, traz pra você alguma história. Aí você sofre junto ou, então, comemora alguma vitória da pessoa. Isso é bem legal. Vai além de ser só profissional”, afirma.
A origem de um gigante do varejo A importância estratégica da Ibitiguaia também é reconhecida por grandes grupos empresariais. O bairro Santa Luzia foi o berço do Grupo Bahamas, fundado por Jovino Campos e Paulo Roberto Lopes. A segunda unidade da rede foi instalada na avenida justamente por sua capacidade de conectar o centro de Juiz de Fora a diversos bairros da região, consolidando-se como um eixo de crescimento.
“A gente teve lá a segunda loja, entre [as avenidas] Ibitiguaia e Darcy Vargas, que é a ligação de Santa Luzia com o Bairro Ipiranga e hoje vários bairros que estão na redondeza. Antigamente, [no bairro] só tinha comércio praticamente na Ibitiguaia”, relembra Paulo Roberto.
Entre o progresso econômico e as memórias de quem vive e trabalha no local, a Avenida Ibitiguaia permanece como um exemplo de como a força de vontade de pequenos e grandes empreendedores molda a trajetória de um bairro inteiro.








