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Brasil fora do Mapa da Fome, mas com 44 milhões sem dieta saudável

Relatório da ONU revela que um quinto da população ainda não possui renda suficiente para comprar alimentos nutritivos no país.

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Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões de pessoas sem renda suficiente para manter alimentação saudável

Apesar de o país ter deixado o Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) em julho do ano passado, o Brasil ainda enfrenta um obstáculo expressivo: 44,8 milhões de cidadãos — cerca de 20% da população — não possuem renda suficiente para manter uma alimentação saudável e balanceada, conforme os parâmetros recomendados internacionalmente.

H2 O cenário da insegurança alimentar no país O levantamento “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi)”, divulgado pela agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), aponta que 20,3 milhões de pessoas passaram por insegurança alimentar moderada ou grave entre 2023 e 2025. Esse grupo não teve acesso regular a comida nutritiva e em quantidade adequada, embora o número represente uma queda em relação aos 39,7 milhões registrados entre 2021 e 2023.

A concentração dessa vulnerabilidade ocorre majoritariamente em domicílios chefiados por mulheres, com destaque para mulheres negras, e nas regiões Norte e Nordeste.

H3 Desafios econômicos e o peso dos ultraprocessados Especialistas apontam que a instabilidade no mercado de trabalho e a precarização da renda estão no centro do problema. Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, relaciona esse cenário às condições precárias de trabalho enfrentadas por essas populações, como baixos salários, informalidade e instabilidade de renda.

“A trabalhadora doméstica, por exemplo, tem muita descontinuidade na renda. Por isso, sua família fica mais sujeita à insegurança alimentar”, exemplifica.

H2 O alto custo de comer bem Para estimar a parcela que não consegue arcar com uma dieta adequada, a ONU cruza o custo de uma cesta básica diversificada com a renda restante após o pagamento de despesas essenciais como moradia e transporte. No Brasil, o custo diário subiu de 3,97 dólares internacionais em 2021 para 4,89 dólares internacionais em 2025.

H3 Impacto do salário mínimo e inflação dos alimentos O valor necessário para suprir uma família de quatro pessoas com produtos frescos consome quase a totalidade do salário mínimo atual, dificultando o acesso para as camadas de menor renda.

“O custo de uma cesta básica saudável no Brasil hoje seria de R$ 240 a R$ 250 por mês por pessoa. Para uma família de quatro pessoas, isso representa cerca de R$ 1 mil, quase todo o salário mínimo (de R$ 1.621). Só pode pagar quem ganha mais que o mínimo”, diz Graziano.

Além disso, a disparidade de preços entre produtos frescos e industrializados impulsiona o consumo de itens menos nutritivos.

“A salsicha sobe menos do que o preço da alcatra, da picanha. Varia menos. Alimentos frescos e carnes dependem de transporte refrigerado e armazenagem especial, o que encarece o produto final”, diz.

Zimmermann reforça que os produtos industrializados utilizam insumos mais baratos na fabricação.

“Se a gente pensar nos produtos pré-prontos, nas massas, nos biscoitos, chocolates, muitos têm soja na composição. Isso acontece porque a gente produz muita soja, então o custo fica muito mais barato que outros componentes”, diz.

H2 Desertos alimentares e barreiras de distribuição Outro fator determinante para a má alimentação são os chamados desertos e pântanos alimentares nas periferias urbanas, onde o acesso a itens frescos é limitado ou superado pela oferta de produtos ultraprocessados.

Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), destaca a complexidade das cadeias de suprimento e a priorização do mercado externo por parte de polos produtivos nacionais.

“Esses polos dão preferência para a produção de frutas que os outros países estão querendo ao invés de olhar para a região e pensar: ‘bom, quais são as frutas tradicionais daqui? As frutas nativas ou que têm uma relação histórica ou social com o local?’”, diz.

Recine pontua ainda os reflexos logísticos dessa dinâmica:

“Não faz sentido, por exemplo, você produzir maçã em Santa Catarina, e levá-la para Manaus. Não quer dizer que as pessoas não têm direito de comer maçã. Quer dizer que a gente reduziu tanto a nossa diversidade que depende de circuitos longos. E isso impacta qualidade e preço do produto. Porque tem custo de transporte, de armazenagem e refrigeração.”

H2 Integração de políticas públicas como solução Para combater a raiz da vulnerabilidade e alcançar os milhões que ainda sofrem com a falta de segurança alimentar, o governo aposta na integração entre redes de atendimento social, saúde e assistência.

Elisabetta Recine aponta falhas históricas no suporte contínuo aos mais vulneráveis:

“Uma pessoa em situação de rua, por exemplo, chega a um abrigo, a um centro de saúde. Em algum lugar, ela chega. O problema é que ela chega e vai embora. Ninguém a acolhe no sentido de dizer: ‘Fique aqui, você não precisa só de um curativo’.”

Por fim, especialistas ressaltam que o orçamento destinado à área precisa ser garantido estruturalmente.

“Embora a Constituição brasileira garanta o direito à alimentação, as políticas de segurança alimentar no Brasil não são políticas de Estado, como são as de saúde e educação, em que uma percentagem do orçamento é garantida”, destaca Graziano.

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