Listas com sugestões de boicote contra comércios, profissionais liberais e até igrejas começaram a circular intensamente nas redes sociais em várias cidades do Espírito Santo, após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais.
Alvos variados nas redes sociais
As publicações reúnem uma ampla gama de alvos que vão desde pequenas boutiques, restaurantes e lojas de materiais de construção até professores, camelôs, instituições bancárias, influenciadores digitais e filiais de grandes redes varejistas. O fenômeno reflete a alta polarização política no estado, atingindo tanto o setor empresarial quanto autoridades e templos religiosos que tiveram posicionamentos públicos questionados ou manifestados durante o período de campanha.
Repercussão em templos e paróquias
Em Baixo Guandu, na região Noroeste capixaba, um padre gerou forte repercussão ao pedir durante uma missa que os fiéis reavaliassem seus votos na urna. O religioso criticou a aproximação de políticos com um ex-pastor que chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em 1995, afirmando que apoiar candidatos ligados a esse tipo de episódio representa uma “trair a Igreja Católica”.
Posteriormente, a comunidade local emitiu uma nota reforçando que o altar deve ser “utilizado exclusivamente para fins religiosos, sem manifestações político-partidárias”.
Já em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do estado, o arcebispo local convocou os fiéis a votarem em defesa da democracia, o que motivou reações e ataques públicos ao clero. Como resposta, uma lista de boicote criada em pleitos anteriores voltou a circular, incluindo paróquias, a catedral municipal e até uma rádio católica da região. A Comissão Justiça e Paz da diocese saiu em defesa do líder religioso e reforçou que a atuação da instituição não se trata de propaganda partidária.
Comércios e empresários visados
De norte a sul do território capixaba, diversos estabelecimentos comerciais também foram colocados na mira de campanhas de retaliação digital sob a acusação de ligação com correntes políticas específicas. Na capital Vitória, um comerciante teve seu negócio incluído em uma das relações divulgadas na internet. Ao comentar a situação, o proprietário afirmou que o estabelecimento é “estritamente apartidário e acolhe clientes de todas as tendências políticas com o mesmo respeito”.
Outra marca afetada foi uma empresa de calçados com atuação na região norte e na capital, cujos dirigentes decidiram acionar a assessoria jurídica para coibir a propagação de boatos e conteúdo difamatório. “Pessoas mal-intencionadas estão nos querendo rotular como comunistas. Temos empresa, não faz nem sentido sermos comunistas”, disse um dos proprietários da Amabilis, Luiz Guidoni.
Enquanto algumas marcas buscam reparação legal, profissionais autônomos citados nas listas relatam impactos distintos. Em Cachoeiro de Itapemirim, relações antigas foram recicladas e voltaram a circular com nomes de comércios que já encerraram as atividades. Profissionais da área artística afirmam que a exposição não chegou a prejudicar suas demandas cotidianas.
“Hoje em dia, as coisas estão mais inflamadas. Nunca fui de colocar a cara na internet falando de política, mas tenho meu posicionamento. Não impactou porque, como faço tatuagem, que é uma coisa mais artística, lido com um público mais ‘cabeça aberta’ e não tão conservador”, disse o tatuador Otávio Guimarães.








