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Indústria em PE: desafios e a transição do açúcar ao petróleo

Enquanto o estado busca diversificar sua economia, especialistas alertam para o risco da desindustrialização e a falta de alta tecnologia.

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Da cana ao petróleo: como indústria de Pernambuco se transformou e o que falta para setor crescer

A economia de Pernambuco atravessa uma fase de metamorfose estrutural. O que historicamente foi sustentado pela força do cultivo de cana-de-açúcar, hoje busca novos horizontes em setores de alta complexidade, como o refino de petróleo e a biotecnologia. Contudo, essa transição enfrenta gargalos importantes, com especialistas apontando riscos de desindustrialização e dificuldades em consolidar segmentos de ponta.

A força do setor de alimentos e as novas apostas O setor de alimentos e bebidas, que engloba as usinas de açúcar e álcool, permanece como um pilar fundamental na geração de empregos. Em 2025, o segmento foi responsável por 34.770 admissões, representando cerca de 35% das 98.290 contratações totais da indústria pernambucana, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Profissional e Empreendedorismo (Sedepe).

Apesar disso, o estado tem diversificado sua matriz produtiva. O ranking de contratações também destaca áreas como confecção (8.563), minerais não metálicos (6.587), manutenção de máquinas (5.699) e produtos de metal (5.131).

Mudanças no perfil industrial Para o economista João Policarpo Lima, professor aposentado da UFPE, o cenário atual é resultado de décadas de projetos estruturantes. “O setor açucareiro era o setor mais importante da indústria. Passou séculos sendo um setor importante, exportador. Entrou em crise, mas agora ele está estável, mantém a produção com certa estabilidade, de forma que o mix [de indústrias] está mudando. […] Nos anos 2010 a 2020, teve grandes projetos estruturadores implantados aqui. Alguns deles continuam ativos e outros, como a indústria do consumo naval, perdeu o curso.”

Sobre o setor naval, o especialista comenta: “A Petrobras parou de comprar navio, mudou de estratégia e (isso) foi negativo para a indústria do consumo naval. Ela está, aos poucos, retomando isso, mudando o perfil, passando a voltar a comprar navios e plataformas aqui no Brasil. Mas a indústria do consumo naval em Pernambuco não retomou ainda”.

Expansão em Suape e Goiana Em contrapartida, projetos estratégicos ganham fôlego. A Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Ipojuca, é o principal motor de crescimento. “Mas tem uma indústria, dos outros projetos estruturadores, por exemplo, a refinaria de petróleo, que está em crescimento, duplicando a capacidade de processamento, a refinaria Abreu e Lima. Isso é um investimento muito alto”, aponta Lima.

Outro destaque é o Polo Automotivo Stellantis, em Goiana, e a chegada da Hemobrás, focada em hemoderivados. “E tem outro projeto que está também indo bem, que é o da fábrica da Fiat, em Goiana, que hoje é a Stellantis. Esse setor está em ascensão. E lá em Goiana, também tem outro setor que está em crescimento, que é o da Hemobrás, que está se expulsando e tem uma probabilidade de continuar crescendo para atender a demora do SUS”, completa o professor.

O risco da desindustrialização Apesar das grandes plantas industriais, há um alerta sobre a perda de participação da indústria na geração de riqueza. O doutorando Lucas André Penha dos Santos, da UFPE, destaca que o “tendão de Aquiles” da Região Metropolitana do Recife (RMR) é a carência de indústrias tecnologicamente avançadas.

“Os ramos industriais mais ricos em tecnologia, e que são fundamentais dentro do cenário atual de competitividade, foram os que mais apresentaram um déficit ou uma estagnação. […] O ‘tendão de Aquiles’ da indústria da RMR é representado justamente pelas atividades industriais mais dinâmicas e que concentram mais tecnologia. A RMR não tem justamente essas indústrias mais competitivas como foco”, explica.

O pesquisador também ressalta as consequências sociais desse fenômeno: “As regiões que sofreram ou que sofrem com a desindustrialização possuem um setor de serviços inchado, caracterizado por baixa remuneração e por dinâmicas de trabalho que são, via de regra, exaustivas. […] Um grande contingente desse pessoal, que é demitido, vai procurar emprego justamente no setor de serviços. Esse movimento forçado vai tornar esse setor desequilibrado, instável, desordenado. Nem sempre ele tem capacidade de absorver todo esse pessoal. Com isso, a gente tem a formação de um ambiente de trabalho precarizado”.

Caminhos para o desenvolvimento Para reverter o quadro, o especialista defende uma integração maior entre academia e indústria. “A gente tem que buscar saídas que englobem mais coisas, que se relacionem com vários conjuntos da nossa economia. A resposta não está apenas em um processo. Se não só a RMR, mas também Pernambuco como todo, construir uma conjuntura, um contexto industrial mais dinâmico, seja por meio de programas estratégicos, seja através de uma maior aproximação das instituições de pesquisa com a indústria, certamente nós veremos um início de um cenário mais competitivo no nosso setor de transformação”, avalia.

O governo do estado, por sua vez, aposta na transição energética e na melhoria do ambiente de negócios. A secretária Danielle Jar Souto destaca que ações estão sendo tomadas para conectar universidades ao mercado: “Identificamos a necessidade da conexão da academia com análises mais aprofundadas para que a gente consiga direcionar nossas políticas públicas […]. Isso não está fechado, mas tivemos uma reunião com a UPE (Universidade de Pernambuco), para firmar um termo de cooperação para que a UPE consiga conectar essas cadeias, colaborando com a identificação dos talentos”.

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