Uma famosa narrativa sobre mortes, surtos de doenças e aparições misteriosas atrai curiosidade há gerações no interior paulista, envolvendo o antigo Cemitério São Bom Jesus do Lazareto, localizado no município de Jaboticabal.
A origem histórica do Cemitério São Bom Jesus do Lazareto
O surto sanitário ocorreu no final do século 19, forçando a criação de áreas de sepultamento distantes dos centros urbanos para evitar novos contágios na região de Ribeirão Preto.
“A epidemia da febre amarela aconteceu em 1896, matou bastante gente na região e, na época, por medo do contágio dela, eles faziam cemitérios longe da cidade. O Cemitério do Senhor Bom Jesus, que é onde hoje está localizada a Capela do Senhor Bom Jesus do Lazareto, estava em um bairro bem distante da cidade.”
Com o passar dos anos, o abandono e a vegetação encobriram boa parte das sepulturas daquele período.
“Eles foram enterrando as pessoas que morriam de febre amarela. Em 1931, o local já era lotado. Porém, devido à ação do tempo, pelo abandono de outras épocas e também porque ninguém cuidava do cemitério porque era longe da cidade, as sepulturas foram desaparecendo”.
A confusão com as Três Catacumbas
Especialistas apontam que o mito principal costuma se confundir com outro ponto histórico do município, situado a cerca de 15 quilômetros de distância, na Estrada do Carretão.
O local teria surgido após o falecimento de uma família inteira que buscava socorro médico na região.
“Nesse lugar, eles foram sepultados, ali mesmo, por medo do contágio e é o que deu origem às três catacumbas. Nós não sabemos, não conseguimos identificar o nome de quem morreu ali”.
Como o mito dos espanhóis ganhou força internacional
A versão de que sete estrangeiros teriam falecido na localidade e gerado assombrações no antigo cemitério ganhou repercussão após a exibição de um programa de televisão internacional, impulsionada por uma visita de turistas ao terreno no início dos anos 2000.
“Ali o pessoal passou um pouco mal, e foi tão traumatizante para eles”.
Após o mal-estar no campo, a narrativa foi exportada para a Europa, gerando grande curiosidade pública.
“Ambos voltaram para a Espanha depois e, até onde eu levantei, contaram essa história lá para um tipo desses programas de TV, que são aqueles programas espetaculares, e eles acabaram fazendo uma edição do programa falando a respeito de um cemitério fantasma que existia em um vilarejo no interior de São Paulo.”
Pesquisas em arquivos oficiais não mostram comprovação para a narrativa dos estrangeiros assombradores, embora houvesse diferentes nacionalidades sepultadas ali.
“Os registros das pessoas que estão enterradas no cemitério do Lazareto são de italianos, brasileiros e também espanhóis. Agora, não existe nenhum registro histórico que comprove essa história deles.”
Mitos sobre sepultamentos vivos e cremações
Rumores sobre corpos incinerados ou pessoas sepultadas sem vida confirmada também carecem de respaldo documental, sendo associados a reações naturais do corpo após o óbito e à falta de infraestrutura sanitária da época.
“As pessoas morriam e, segundo relatos médicos, existiam alguns espasmos após a morte delas e as pessoas diziam que eram enterradas vivas. Agora, sobre elas terem sidos queimadas, não há registro oficial na cidadeiro.”
A união entre acontecimentos reais e o folclore local garante a permanência dessa narrativa no imaginário popular de Jaboticabal. “São coisas que vêm sendo contadas. As lendas vão continuar.”








