Um tenente da Polícia Militar se emocionou durante um patrulhamento de rotina ao flagrar um cadeirante empurrando um carrinho de picolés por uma avenida em Palmas, na última sexta-feira (30). Tocado pela cena, o oficial parou para adquirir os produtos e gravou um registro que rapidamente repercutiu nas redes sociais.
Ação policial e engajamento popular O material produzido pelo tenente Régis Márcio evidencia a abordagem da viatura ao trabalhador. De acordo com o agente, o grande diferencial foi constatar a ausência de propulsão motorizada no equipamento utilizado.
“Me causou muita perplexidade porque não era uma cadeira de rodas elétrica. Era um cidadão que tinha que fazer força braçal com uma mão para dar tração à cadeira e, com a outra, empurrar o carrinho. Pedi para o motorista voltar para consumirmos os produtos dele, que era a forma que tínhamos de ajudar”, conta o tenente.
A parada do veículo oficial atraiu olhares de motoristas que passavam pelo trajeto, resultando em novas paradas para consumo. “Aquilo nos comoveu muito. Ele não estava ali pedindo ou reclamando da vida, estava sorridente, feliz e grato por conseguir trabalhar e tirar o próprio sustento”, afirma o oficial.
Trajetória de superação e emprego O comerciante é João Douglas Fernandes, de 46 anos, morador de Taquaralto, na região sul da capital. Ele faz uso de cadeira de rodas há 14 anos e encontrou na venda de picolés, há cerca de um mês, uma alternativa para custear despesas cotidianas e itens fundamentais para sua saúde, como fraldas e bolsas de colostomia.
Para iniciar na atividade, o vendedor precisou persistir, contatando por aplicativo de mensagens uma distribuidora local em busca de uma oportunidade. A coordenadora de vendas da empresa, Natália Marques, relatou a surpresa da equipe quando o candidato compareceu pessoalmente no dia seguinte.
“Ele nos contou a história dele e pediu uma chance de trabalho, relatando que já havia recebido muitas recusas. Vimos a situação de vulnerabilidade, mas a persistência e a determinação dele falaram mais alto, e nós cedemos. Ele está trabalhando conosco há quase um mês. Quando temos disponibilidade, levamos o carrinho até o ponto de venda. Quando não é possível, ele mesmo vai conduzindo. Ajudamos da forma que podemos”, explica Natália.
Rotina e novos sonhos João Douglas cumpre rotina diária pelas ruas palmenses e retorna para casa de ônibus ao fim do expediente. A perda dos movimentos começou em 2012, após uma intervenção cirúrgica na coluna em decorrência de um tumor benigno.
“Passei sete anos mexendo apenas os olhos. Fiquei dependendo da ajuda de várias pessoas, enfrentei muitas dificuldades, mas Deus me levantou de novo”, afirma o vendedor.
Residente sozinho e sem filhos, ele arca com água e luz do imóvel onde reside temporariamente. Apesar do desgaste físico, ele enfatiza a paixão pelo comércio.
“Eu sempre trabalhei com vendas e gosto de vender picolé porque gosto de conversar com o povo. A gente incentiva muitas pessoas; muitas pessoas se espelham na gente. Por isso, a gente não pode parar, não pode desistir. Quero trabalhar com alegria e dignidade”, ressalta.
Atualmente, o principal anseio do trabalhador é obter um triciclo adaptado para acoplar a estrutura ou transportar as caixas térmicas com maior segurança e menor esforço físico.
“Já faço muita coisa na cadeira de rodas, mas um triciclo facilitaria muito para eu me locomover com segurança e carregar os picolés. Trabalhando, eu consigo sobreviver honradamente e comprar meus remédios e mantimentos”, pontua.
Em longo prazo, ele cultiva outra meta pessoal. “Meu grande sonho é conseguir adquirir minha casinha mobiliada, ter o meu cantinho e continuar trabalhando com gosto”, conclui.








