A economia brasileira atravessa um momento decisivo enquanto os eleitores se preparam para o segundo turno. Com a dívida pública atingindo o patamar de R$ 11,1 trilhões — o equivalente a cerca de 82,9% do PIB —, o debate entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro gira em torno da sustentabilidade das contas públicas e da viabilidade financeira de suas promessas de campanha.
O desafio do próximo presidente O principal entrave para qualquer gestão é a rigidez orçamentária. Atualmente, 90% dos R$ 2,8 trilhões previstos em despesas primárias para 2027 já estão comprometidos com gastos obrigatórios, como Previdência, salários e benefícios sociais. Para Murilo Viana, mestre em economia pela Unicamp e especialista em contas públicas, as projeções do Tesouro Nacional apontam para uma redução dos recursos disponíveis ao governo também nos próximos anos, o que pode limitar ainda mais a capacidade de escolha do próximo presidente sobre onde investir.
Riscos na renegociação de dívidas Ambos os candidatos focam no alto endividamento das famílias, que atingiu níveis recordes em 2026. Flávio Bolsonaro propõe utilizar a Caixa Econômica Federal para absorver dívidas de inadimplentes com juros menores. A ideia, porém, encontra resistência técnica. “Utilizar a Caixa Econômica Federal para fazer esse tipo de operação é um risco gigantesco de transferir a dívida privada para uma instituição pública”, afirma Murilo Viana.
Daniel Duque, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), complementa que a medida pode gerar um efeito colateral negativo no mercado de crédito. “Isso vai ter consequências sobre as análises de crédito futuras. Os bancos podem pensar: se o governo pode fazer isso agora, quem garante que não fará de novo daqui a dois anos?”, diz Duque.
Já o governo Lula aposta em medidas como o perdão de dívidas de microempreendedores (MEIs) e a integração desse setor ao Desenrola 3.0. No entanto, o custo para o erário gera questionamentos. “Pessoas e bancos acabam esperando para agir: ‘o governo vai fazer essa renegociação, então não vou pagar porque vai sair mais barato eu esperar pelo próximo programa’”, afirma Daniel Duque.
A questão do ajuste fiscal O plano de Flávio Bolsonaro sugere um corte de 1,5% do PIB em gastos, embora os detalhes desse “tesouraço” permaneçam vagos. Ricardo Hammoud, economista do FGV Ibre, aponta que promessas genéricas são insuficientes diante da rigidez orçamentária. “Flávio prometeu melhorar a eficiência do gasto público, mas isso ainda é muito pontual. Para fazer mudanças estruturais, são necessárias reformas que permitam alterar regras de despesas obrigatórias”, afirma Hammoud.
Por outro lado, Lula defende a ampliação de programas sociais e investimentos públicos. Para muitos analistas, o aumento dessas despesas, sem uma fonte clara de receita, pressiona a trajetória da dívida. Hammoud critica a estratégia atual: “O arcabouço fiscal fracassou no controle da dívida. Em 2023, o governo prometeu conter o aumento dos gastos e estabilizar a dívida, mas não entregou o resultado esperado”.
Propostas tributárias e sociais Flávio Bolsonaro planeja retomar o Perse e rever mecanismos como o split payment, visando aliviar setores específicos. Contudo, economistas alertam para o risco fiscal. “Sou favorável à redução de impostos e considero a carga tributária brasileira muito alta em comparação com a de outros países emergentes. Mas não há espaço hoje para cortar tributos. A prioridade precisa ser a dívida pública. Se Flávio fizer isso inicialmente, poderá gerar dúvidas sobre a responsabilidade fiscal que tanto defende”, afirma Ricardo Hammoud.
Sobre o Perse, o candidato do PL declarou: “O maior programa de incentivos aos artistas e eventos foi criado em 2021. Sabem quem fez: o Jair. Vou restabelecer o Perse para todo setor de eventos culturais, shows, turismo, que hoje estão sufocados, endividados pela crise que esse governo colocou o país inteiro”.
Enquanto isso, a economista Juliana Inhasz, professora do Insper, reforça que a viabilidade das propostas eleitorais depende de transparência. “Há propostas que não se sustentam quando se pergunta de onde virá o dinheiro. Sem uma fonte de financiamento definida, fica difícil saber como seriam executadas”, afirma Inhasz.
O cenário aponta que, independentemente do vencedor, o próximo governo enfrentará um Orçamento exíguo e a necessidade urgente de conciliar demandas sociais com a responsabilidade fiscal, sob o risco de agravar a trajetória da dívida nacional.








