A passagem de 11 anos desde o rompimento da barragem em Mariana, em Minas Gerais, não foi suficiente para devolver a tranquilidade aos moradores capixabas que dependem do Rio Doce e do litoral do Espírito Santo. A invasão de lama de rejeitos da Samarco transformou permanentemente o ecossistema e alterou a relação histórica entre as comunidades locais e as águas.
Impactos e incertezas na pesca artesanal Em Regência, distrito de Linhares, profissionais tradicionais relatam o medo de comercializar o pescado e colocar consumidores em risco. O presidente da Associação de Pescadores local ressalta que a atividade moldou sua trajetória familiar, mas hoje convive com o receio e a saudade da rotina marítima.
Outros profissionais precisaram migrar para setores completamente diferentes, como o cultivo de cacau, para garantir o sustento. Para eles, o afastamento da atividade pesqueira gera impactos que vão muito além da perda financeira, afetando também a saúde emocional e psicológica.
Comunidades indígenas abandonam antiga tradição alimentar Na aldeia Piraquê-Açu, situada no município vizinho de Aracruz, a rotina cultural e alimentar foi profundamente alterada. A comunidade parou de consumir os recursos do rio e passou a buscar alimentos em outras fontes, distanciando-se de práticas centenárias de subsistência e conexão espiritual.
Durante uma visita recente à região, lideranças locais realizaram momentos de prece nas margens do manancial, expressando através de cânticos a dor coletiva pela degradação ambiental e o desejo de recuperação para as futuras gerações.
Monitoramento ambiental e alertas sanitários Pesquisas conduzidas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) continuam registrando alterações preocupantes na fauna aquática da bacia, incluindo o surgimento de peixes com deformidades e tumores. Especialistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) explicam que episódios de chuvas intensas provocam a resuspensão de sedimentos contaminados, gerando oscilações nos índices de metais pesados.
Embora o governo federal tenha autorizado recentemente a retomada da pesca profissional em um trecho próximo à foz, agências de regulação sanitária alertam sobre restrições. Análises da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) identificaram concentrações de cádmio acima do permitido em amostras de água doce, reforçando a insegurança sobre o consumo.
Posicionamento das empresas e medidas governamentais As companhias envolvidas apontam que o Novo Acordo do Rio Doce assegura o financiamento de programas de monitoramento contínuo e repasses milionários a instituições científicas encarregadas de avaliar a biodiversidade e a qualidade dos sedimentos.
Paralelamente, o governo estadual articula planos de reestruturação para o setor pesqueiro e iniciativas de recuperação florestal. Contudo, a ausência de dados históricos consolidados anteriores a 2015 dificulta a comparação precisa entre o cenário atual e o período que antecedeu o maior desastre ambiental do país.








